Enquanto durmo

15/01/2013 § 1 comentário

Não se tratava de mediunidade. Apenas de repetir o que havia sonhado. Quando acordou, decidiu seguir os passos tal qual tinha acontecido enquanto dormia. Mal levantou, ainda sonolento e sem encontrar os óculos, correu para escrever o que lembrava. Era a única forma de não ser traído pela memória do que ainda não tinha vivido e poder reproduzir fielmente o sonho. Depois, colocou o plano em ação. O sol ainda estava surgindo no horizonte.

Quando acabou de escrever, o dia parecia com o do sonho. Releu duas, três vezes os papéis que a máquina de escrever regurgitava, rasgou e foi para a rua. Antes, vestiu a mesma roupa e calçou os mesmos sapatos que apareciam no sonho. Ou o que lembrava deles: uma calça jeans desbotada e rasgada nos bolsos de trás. Uma camisa puída, bastante usada, uma de suas preferidas. E o par de sapatos que lhe davam dores mas eram um fiel amuleto. Viu que tinha algumas moedas no bolso – tal qual no sonho, para seu total espanto – e duas notas de cinco na carteira, que guardou no outro bolso, com o celular. Notou ali o charuto que tinha ganhado no Natal.

Foi para a rua.

Não costumava ler o jornal que comprou na banca. Apesar de assinar o concorrente, usou as moedas que encontrou no bolso da calça e levou a edição do dia. O jornaleiro não o conhecia e não fez diferença nenhuma ele levar o jornal. Poderia ter sido uma revista de mulher pelada ou o fascículo da semana de uma coleção qualquer. Não faria a mínima diferença para o homem, bonachão e de riso fácil. Caminhou algumas quadras com o jornal dobrado sob o braço, manchando a camisa puída. Do sonho ele lembrava que só lia as notícias quando chegava ao destino.

E não demoraria a chegar. Tomou o metrô. O jornal ainda dobrado e a mente, que parecia distraída, refazendo os passos do sonho anotados em palavras datilografadas e memorizadas. Desceu quatro estações depois, esbarrando em uma pessoa que forçava a entrada antes de esperar o desembarque. Irritado com o jornal que se desmontou no chão, recolheu as folhas dobradas e seguiu em frente sem dizer nada. Ele já sabia que aquilo ia acontecer.

Precisou caminhar algumas quadras ainda. O dia estava ameno, sem o calor das últimas semanas. Ideal para sentar em um bar, em uma das mesas na calçada, e tomar um café enquanto lia, finalmente, as notícias da véspera. Talvez fumasse o charuto. O lugar apareceu logo, em uma das esquinas, como no sonho. Tinha muitas mesas vazias, e ao sentar-se em uma delas, em um dos cantos, ele a avistou.

Ela usava a mesma roupa do sonho: calça preta mais ou menos justa, como poderia estar usando em qualquer outro dia. Camiseta com a logomarca do local e um avental vermelho com um bolso na frente. Dentro, uma ou duas canetas. O cabelo estava preso e ela estava com os óculos, apesar de odiar ser vista com eles. “Deve ter dormido fora de casa”, pensou, e depois se lembrou que havia sonhado com o comentário. Ela não costumava levar os apetrechos das lentes de contato na bolsa, uma distração que ele conhecia tão bem.

Mesmo com os óculos, ela não o viu. Estava ocupada entre bandejas e pedidos. Ele, longe o bastante, fingia estar mergulhado no jornal, aberto em toda sua altura como um grande cardápio. Mas o jornal poderia estar de ponta-cabeça: sua atenção estava nos passos dela, que parecia também ter ensaiado o roteiro dos papéis de sua máquina de escrever.

Enquanto via o que ela fazia, e para onde caminhava, ele se esqueceu de escolher o que ia tomar. Notou que estava na página da coluna social, que não costumava visitar. Era assim no sonho, que também já tinha previsto as notícias, palavra a palavra. Entre uma foto e outra dos famosos do dia, ele reparava nela, e pensava no que havia pensado no sonho: a quebra de expectativas, a frustração, a dor, a dura separação. Virou a página. Anúncios. Um sujeito usando o mesmo avental vermelho se aproximou da mesa.

Ele poderia pensar que o rapaz vinha anotar o pedido, mas já sabia o que ouviria. “Você pode me emprestar o jornal? Faço parte de uma organização de jovens carentes e o jornal que compramos hoje veio sem o suplemento de cultura, que usamos para sugerir atividades. Pode vir comigo?” Começou a ventar forte. No sonho, o “pode vir comigo” já tinha soado estranho. Um garçom ia sair do trabalho no meio do expediente para levar um cliente sabe-se lá para onde, por um pedaço de jornal? Mas ele decidiu ir.

O garçom, ainda com o avental vermelho, caminhava na frente, sem falar nada mas parecendo extasiado: conseguira o caderno com as resenhas minimalistas dos filmes em cartaz. Ele ia atrás, brigando para folhear o que restava do jornal que seria doado. Não conseguiu ver nada: o vento estava muito forte. Como no sonho, ficou irritado e achou a situação absurda. Como no sonho, decidiu voltar sem dizer nada ao garçom, que demorou a notar que não estava mais sendo seguido. Foi em direção à mesa, e de canto de olho a viu.

Ela já tinha notado sua presença, mas fingia que não. Ele sabia. Ao voltar para a mesa, notou que tinha esquecido o celular ali quando se levantou. Sentou. O garçom se aproximou, outra vez, e ele prometeu que, ao terminar de ler, dali a pouco, daria o jornal. O garçom – ele já sabia – se sentou na mesa em frente, como a esperar. Ela estava mais perto, caminhando entre os clientes e disfarçando o olhar, que percorria seu canto do bar. Com o garçom ali, ansioso, ele aproveitou para perguntar dela:

– Você conhece aquela moça, ali? Ela é nova?
– Não. Sempre trabalha aqui. Ou finge que trabalha.

Ele não gostou de ouvir as palavras jocosas sobre ela. Mas ela parecia mesmo distraída, absorta em pensamentos que ele conhecia bem, enquanto algumas mãos levantadas pediam sua presença e algum atendimento. Ele sabia o motivo das nuvens em que ela estava com a mente. Calou-se e voltou ao jornal. Queria se livrar das páginas e da tinta que ia ficando em seus dedos. Queria se livrar logo do garçom.

O incrível aconteceu, como no sonho. Um famoso ator parou logo atrás dele e apontou a foto enorme do anúncio de sua peça. Eles já se conheciam de uma entrevista antiga, mas o ator não se lembrava. Trocaram algumas palavras e o ator fingiu simpatia. Ao ver o charuto sobre a mesa, fingiu se lembrar da entrevista – tinha fumado um enquanto conversavam. Acendeu com uma baforada e foi embora, levando o charuto. Espantado, ele olhou para o garçom, que já tinha se levantado e estava ao seu lado fazendo um gesto que parecia compartilhar o susto.

Dobrou o jornal e o entregou para o rapaz. Ao ver que ela se aproximava, aproveitou para pedir uma dica: qual sanduíche ele aconselhava? O garçom falou um nome, tão inaudível como no sonho. Enquanto procurava no cardápio para dizer logo que ia querer aquilo mesmo e um café duplo, puro, muito forte, ouviu:

– Vamos dividir?

Acordou.

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