Hoje eu recebi uma carta

09/02/2013 § 2 Comentários

Hoje eu recebi, pelo correio, uma carta. Uma carta, mesmo, com envelope, selo, escrita à mão. A carta estava ensopada quando eu a peguei na entrada do prédio, culpa da chuva tenebrosa que caiu aqui. Precisei esperar algumas horas enquanto as folhas secavam e as letras redondas iam aparecendo de novo no papel. Mesmo molhada, tem muito mais graça do que cada um dos 874 emails que recebi hoje.

Uma carta de Londres

Podem me chamar de antiquado e romântico, nisso sou mesmo! Adoro o ritual de me deparar com um envelope com o meu nome na frente, virá-lo para descobrir de onde veio (essa chegou de Londres, outro dia recebi um pacote de Cuiabá e outro de Foz!) Depois, subir com a correspondência, ansioso para conhecer seu conteúdo. Abrir a carta, enquanto reparo no selo (já colecionei selos!), no envelope, nos detalhes da letra que ensina o rumo que ela deve tomar…

E o conteúdo é em si a parte mais mágica da coisa. Ao ler as folhas, em geral numeradas, fico imaginando a pessoa debruçada sobre o papel, caneta à mão, ideias na mente que pensa mais rápido que a mão consegue escrever. Tento ler entre as linhas e imaginar o que passava pela cabeça do remetente quando ele escolheu as palavras que viajaram nas mãos de carteiros de diferentes lugares e chegaram até aqui, até esse momento, até seu destinatário.

A exemplo dos livros, que eu prefiro ler no papel, as cartas de corpo e alma, roupa da moda e corpo escultural são bem mais divertidas. É uma pena que muita gente tenha deixado de usá-las. É uma pena que muita gente nunca as tenha usado… Eu troco cartas com amigos ao redor do mundo praticamente desde que tenho amigos ao redor do mundo – deve fazer mais de 20 anos, e começou com a Holanda.

Cartas não exigem, como os emails, resposta imediata. Você lê e, quando lê, em geral as notícias já são velhas. Mas as cartas não servem para dar notícias. Elas servem para trocar sentimentos, impressões sobre um lugar ou um momento. São escritas na calma de uma tarde vazia, com tempo, com carinho – sem a rapidez do teclado e da internet.

Cartas são pessoais. São personalizadas. Cada carta, mesmo cada carta de uma mesma pessoa, tem uma cara só dela. O selo conta uma história, o envelope escolhido, o amassado que o caminho imprimiu, os carimbos que ganhou no percurso… Cartas são exclusivas. Não se repetem. Não se pode copiar e colar o conteúdo de uma carta. Não se pode preencher um campo de cópia ou cópia oculta – a carta é uma conversa entre uma e outra pessoa.

Hoje recebi uma carta. Veio molhada e amassada, mas era uma carta para mim.

E o filme é: Nunca te vi, sempre te amei, com Anthony Hopkins e Anne Bancroft.

Cadê o correio que estava aqui?

31/05/2006 § 1 comentário

Passou a “freqüentar” o mundo virtual da noite para o dia, em uma madrugada mal-dormida. Quando se deu conta, tudo era diferente. Das cartas se fez o email, do telefone se fez o Skype, da voz se fez um conjunto de palavras digitadas… E um dia, embora já acostumado com a facilidade do send, quis mandar uma carta. Agarrou papel e caneta, teve medo da caligrafia. Escreveu uma página e outra mais. Desenterrou um envelope em uma prateleira empoeirada de uma papelaria do bairro. Anotou o endereço do destinatário, longo e sem arroba, e precisou redigir o próprio endereço, também. Precisava apenas de um selo. Foi ao correio. Mas ao chegar lá, não havia correio, mais. Tanto tempo sem mandar cartas, e quando quis mandar, o correio tinha mudado de endereço – ele nem se havia dado conta.

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