Porque um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão

05/08/2013 § 1 comentário

Colaboração, com um lindo pensamento, da Katia Hochberg, que acabou de voltar de Israel, que tem o mais azul dos céus, e de uma visita amarga que eu também já fiz aos campos de concentração na Polônia:

“Eu olhava o céu azul e radiante de Israel no verão e pensava nessa música. Desde então, não sai da minha cabeça! E daí, comecei a pensar que esse trecho faz todo o sentido com a viagem que fiz. As nuvens não eram de algodão, naqueles lugares, você não podia imaginar, não podia sonhar… Pensar no que aconteceu em Auschwitz é como entender que as nuvens não são de algodão”.

É… Os vezes às vezes erram a direção…

Fique com “Somos quem podemos ser”, dos Engenheiros do Hawaii.

E a versão que a Katia mais gosta:

NUMIS: Einstein na nota de 5 liras (Israel)

05/06/2013 § Deixe um comentário

Uma nota da minha coleção. Clique na foto para ler mais a respeito.

5 libras israelenses

O ouro e as mulheres de Jerusalém

21/02/2013 § Deixe um comentário

Achei que jamais usaria esse espaço para falar sobre a região em que vivi durante sete anos, entre 2004 e 2011, o Oriente Médio. Para isso, tinha o blog Expresso Oriente, no qual escrevia bastante sobre minha experiência em Israel, nos territórios palestinos (nos quais, a rigor, não poderia entrar) e nos países aos quais eu tinha acesso livre e legal – Egito e Jordânia.

Mas o relato de uma colega jornalista que está em Israel neste momento me fez repensar essa decisão e deixar de lado a ideia de não falar sobre o Oriente Médio aqui. É a velha história: podemos sair do Oriente Médio (ou da guerra, uns dizem), mas o Oriente Médio nunca sai de nós. Faz parte do que sou.

A Cidade Velha de Jerusalém ao entardecer (Free Israel Photos)

Eu acho que Jerusalém é de ouro. De ouro e da pedra clara que, com os raios solares, deixa a cidade lindamente dourada nos finais de tarde. E essa cor não se ofusca mesmo com os absurdos que acontecem por lá. Na realidade, uma cidade que já viu guerras, crucificações, conquistas, destruição e reconstrução, está acostumada até aos absurdos.

De pedra Jerusalém foi feita. De pedra tem sido seu destino. De pedra muitas de suas agonias, bem como suas mortes e repetidas ressurreições. De pedra também o segredo de seu mágico encanto. (Erico Verissimo, Israel em Abril)

Enfim, o relato da Gabriela Korman no blog Yalla!, feito pelos participantes do Programa de Estágios da Faculty For Israeli-Palestinian Peace-Brasil (FFIPP-Brasil) 2013, aponta para a questão de como ortodoxos judeus encaram (e tratam) as mulheres. Na verdade, o post dela me impressiona nem tanto pelo fundamentalismo, mas pela atuação vergonhosa da polícia, que confisca vestimentas religiosas como se fossem armas e prende mulheres como se fossem uma ameaça à segurança nacional. E sabemos que fazem isso para evitar a revolta dos ortodoxos, que são, eles sim, uma ameaça.

Está na hora de existir igualdade de gênero em um país que se divulga como sendo “a única democracia no Oriente Médio”, mas que separa homens e mulheres nos ônibus, nos templos religiosos e, em algumas ocasiões, até na rua – sem dúvida nas casas e na função familiar de uns e outros. Estão corretas as mulheres que se vestem de talitot e de sua própria fé e vão para o Muro das Lamentações rezar. O lugar é aberto e deve ser para todos.

Israel está se tornando cada vez mais uma teologia fundamentalista e isso definitivamente não combina com democracia. O que acontece no Muro das Lamentações, como no relato da Gabriela, se repete nos assentamentos, em que colonos queimam mesquitas, agridem palestinos (não vou entrar no mérito do equilíbrio ou da questão de defesa) e sequer podem ser punidos pelo Exército – por lei, só a polícia pode prender cidadãos israelenses.

Yesh anashim im lev shel even, yesh avanim im lev adam (Há pessoas com coração de pedra, há pedras com coração de gente; Ofra Haza, Hakotel)

Em tempo e a propósito: na próxima edição da revista Viagem&Turismo, da editora Abril, sai uma matéria minha sobre Jerusalém, cidade sagrada em igual medida (e isso se vê nas ruas, nos monumentos, nas vestes, nas tradições e nas tensões) para judeus, para muçulmanos, para cristãos.

Lagarteando em Jerusalém

13/02/2013 § 1 comentário

Relendo um livro para uma matéria que estou escrevendo, deparo-me com o seguinte trecho: “Solidamente plantada num platô, em meio das montanhas da Judeia, flanqueada por vales, ‘Jerusalém, a dourada’ lagarteia ao sol deste domingo de Páscoa”. É o gaúcho Erico Verissimo, em seu “Israel em abril”, livro escrito em 1969 em que relata uma viagem realizada ao país três anos antes, portanto quando a cidade dourada estava ainda dividida e cuja parte oriental estava em poder dos jordanianos. Ainda não havia acontecido a Guerra dos Seis Dias, e Jerusalém podia lagartear à vontade sob o sol que lhe dourava as muralhas.

A leitura é indispensável para quem quer se divertir, conhecer a Terra Santa dos anos 1960 pelos olhos de um brasileiro e, acima de tudo, se deliciar com o estilo único do Verissimo: “Penso: brinco de viajar, e viajando às vezes me digo que sou dois: um que viaja e outro que se vê viajar. No meu caso, há um terceiro, o que vai escrever sobre o que viajou e o que se viu a viajar. Depois virá um quarto eu: o que ler o que o terceiro escreveu sobre o que viajava e o que se via viajar”.

Logo no início do capítulo “Tudo vale a pena”, ele relata alguns encontros na chegada a Israel “num avião da Alitalia”:

Alguém me estreita contra o peito e ficamos a nos dar reciprocamente fortes palmadas nas costas, numa espécie de dança de ursos, antes mesmo de eu saber ao certo quem me abraça. Finalmente descubro: “Nahum Sirotsky, homem de Deus, que é que você anda fazendo por aqui?” Encontrei pela última vez este simpático judeu errante gaúcho em Washington, há uns quatro anos, e depois perdi-o de vista por completo. Conta-me que é adido de imprensa junto à nossa embaixada em Tel Aviv. Apresenta-nos Beila, sua mulher, uma loura de face dramática.

Nahum, como muitos dos que me leem e acompanham sabem, é meu guru, meu avô postiço, meu mentor  e primeiro (e crítico) leitor em muitas das matérias que escrevi a partir de Israel, onde ele se instalou finalmente na década de 1990 e de onde seguiu trabalhando ao longo de muitos anos, como jornalista e correspondente. Tem hoje 87 anos. Foi um dos anfitriões do Verissimo na viagem que daria no livro. A “loura de face dramática”, Beila Genauer, mulher de Nahum, era atriz,  e formou o Teatro dos Doze, ao lado de Sérgio Cardoso, Sérgio Britto e outros.

Relembrando a despedida

09/03/2011 § 1 comentário

Despedir-se de um pais definitivamente não é coisa simples. Não importa quanto tempo você passou por lá. Na marra ou não, aprendeu coisas, decorou nomes esquisitos de ruas, passou a se localizar entre elas…

A despedida de um país é uma mistura de sentimentos, uma correria, lista de coisas que esperam ser resolvidas… Mas tem um momento que, olhando pra trás, é o momento da despedida – aquele em que, finalmente, a ficha cai. Não é a festa que os amigos te fazem, nem aquela cerveja que você toma com um ou com outro, nem o abraço apertado e molhado de lágrima no aeroporto.

O momento da despedida de Israel, no meu caso, rolou logo após a festa de despedida no Noga, um bar que precisava ter filial em São Paulo, com suas garçonetes, suas mesas de sinuca, sua boa música. Era a véspera da minha partida.

A ficha insistiu para cair, naquele momento em que, festa terminada, me vi então sozinho, voltando de moto (já vendida) pra casa. Percorri de novo aquele caminho que havia percorrido tantas vezes. Vi os prédios que via sempre, mas eles pareceram estranhos.

Naquele caminho curto, encurtado mais ainda pelo vazio das ruas, flashes dos sete últimos anos passearam na minha memória, dentro do capacete: o dia em que botei os pés em Israel pela primeira vez, sem saber uma palavra de hebraico. As pessoas que conheci. Os amores que tive e destive. Os amigos. Os loucos trabalhos. A guerra e meia que vi. As notícias que dei. O livro que não escrevi…

Foram sete anos de flashes. Não espere que eu os transforme em meia dúzia de palavras.

Além dos flashes, com a ficha caindo, apareceu diante de mim aquela lista de coisas que ficaram – e ficariam – sem fazer. E, chorando, pensei nas coisas que não tive tempo de fazer, nas pessoas que não tive tempo de ver e de abraçar, nas palavras que não tive coragem de dizer… Simples assim, sem trilha sonora nenhuma.

Eu acho que não sabia. Talvez sim. Mas aquele, ali, foi meu momento de despedida dos últimos sete anos. Fechei a última capa, grossa e pesada, do livro da história sem fim. E fui deitar.

Porque hoje faz 47 anos

22/11/2010 § Deixe um comentário

Hoje faz 47 anos desde que JFK foi assassinado e o canal 8 da televisão daqui está passando, a semana toda, um especial com imagens perdidas, dizem, de transmissões ao vivo, boletins de rádio e vídeos amadores relacionados ao caso, à medida em que se desenrolava, até o anúncio de que Kennedy estava morto e que Johnson assumiria em seu lugar.

Em lembrança a essa data, em vez do óbvio, quero deixar uma música de um cantor israelense, Shlomo Artzi. A música se chama Doch Retzach (Relatório de Assassinato), e faz um paralelo entre o assassinato de JFK e o de Rabin, três décadas depois, e também relembrado há poucos dias.

A música é em hebraico, mas é possível ler a transliteração e a tradução para o inglês aqui.

Do refrão:

Quantas lágrimas, quantas velas? Quanta loucura ainda pode ser identificada? Quantos dias, quanta escuridão passarão até que… tudo seja esquecido?

Preguiça de sexta

15/10/2010 § 2 Comentários

Sexta-feira é dia pela metade em Israel. Não, não é definitivamente dia como qualquer outro. Não é igual à semana, e é diferente do sábado. É dia preguiçoso, mas corrido. É dia de acordar cedo. Porque tem que dar tempo de fazer tudo antes de tudo parar. Sim, tudo pára! Os ônibus, o comércio, a loucura da semana. E a correria se transforma em velas, acesas em Tel Aviv hoje às 16h46, às 16h32 em Jerusalém. Depois das velas, o canto das sinagogas. E um quase-silêncio. Sexta-feira é dia de edição gorda – bem gorda – do jornal, porque jornal não circula aos sábados em Israel!

É dia de limpezas, dia de afazeres, dia de preguiça, no final do dia.

Bom shabat.

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