O ouro e as mulheres de Jerusalém

21/02/2013 § Deixe um comentário

Achei que jamais usaria esse espaço para falar sobre a região em que vivi durante sete anos, entre 2004 e 2011, o Oriente Médio. Para isso, tinha o blog Expresso Oriente, no qual escrevia bastante sobre minha experiência em Israel, nos territórios palestinos (nos quais, a rigor, não poderia entrar) e nos países aos quais eu tinha acesso livre e legal – Egito e Jordânia.

Mas o relato de uma colega jornalista que está em Israel neste momento me fez repensar essa decisão e deixar de lado a ideia de não falar sobre o Oriente Médio aqui. É a velha história: podemos sair do Oriente Médio (ou da guerra, uns dizem), mas o Oriente Médio nunca sai de nós. Faz parte do que sou.

A Cidade Velha de Jerusalém ao entardecer (Free Israel Photos)

Eu acho que Jerusalém é de ouro. De ouro e da pedra clara que, com os raios solares, deixa a cidade lindamente dourada nos finais de tarde. E essa cor não se ofusca mesmo com os absurdos que acontecem por lá. Na realidade, uma cidade que já viu guerras, crucificações, conquistas, destruição e reconstrução, está acostumada até aos absurdos.

De pedra Jerusalém foi feita. De pedra tem sido seu destino. De pedra muitas de suas agonias, bem como suas mortes e repetidas ressurreições. De pedra também o segredo de seu mágico encanto. (Erico Verissimo, Israel em Abril)

Enfim, o relato da Gabriela Korman no blog Yalla!, feito pelos participantes do Programa de Estágios da Faculty For Israeli-Palestinian Peace-Brasil (FFIPP-Brasil) 2013, aponta para a questão de como ortodoxos judeus encaram (e tratam) as mulheres. Na verdade, o post dela me impressiona nem tanto pelo fundamentalismo, mas pela atuação vergonhosa da polícia, que confisca vestimentas religiosas como se fossem armas e prende mulheres como se fossem uma ameaça à segurança nacional. E sabemos que fazem isso para evitar a revolta dos ortodoxos, que são, eles sim, uma ameaça.

Está na hora de existir igualdade de gênero em um país que se divulga como sendo “a única democracia no Oriente Médio”, mas que separa homens e mulheres nos ônibus, nos templos religiosos e, em algumas ocasiões, até na rua – sem dúvida nas casas e na função familiar de uns e outros. Estão corretas as mulheres que se vestem de talitot e de sua própria fé e vão para o Muro das Lamentações rezar. O lugar é aberto e deve ser para todos.

Israel está se tornando cada vez mais uma teologia fundamentalista e isso definitivamente não combina com democracia. O que acontece no Muro das Lamentações, como no relato da Gabriela, se repete nos assentamentos, em que colonos queimam mesquitas, agridem palestinos (não vou entrar no mérito do equilíbrio ou da questão de defesa) e sequer podem ser punidos pelo Exército – por lei, só a polícia pode prender cidadãos israelenses.

Yesh anashim im lev shel even, yesh avanim im lev adam (Há pessoas com coração de pedra, há pedras com coração de gente; Ofra Haza, Hakotel)

Em tempo e a propósito: na próxima edição da revista Viagem&Turismo, da editora Abril, sai uma matéria minha sobre Jerusalém, cidade sagrada em igual medida (e isso se vê nas ruas, nos monumentos, nas vestes, nas tradições e nas tensões) para judeus, para muçulmanos, para cristãos.

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Lagarteando em Jerusalém

13/02/2013 § 1 comentário

Relendo um livro para uma matéria que estou escrevendo, deparo-me com o seguinte trecho: “Solidamente plantada num platô, em meio das montanhas da Judeia, flanqueada por vales, ‘Jerusalém, a dourada’ lagarteia ao sol deste domingo de Páscoa”. É o gaúcho Erico Verissimo, em seu “Israel em abril”, livro escrito em 1969 em que relata uma viagem realizada ao país três anos antes, portanto quando a cidade dourada estava ainda dividida e cuja parte oriental estava em poder dos jordanianos. Ainda não havia acontecido a Guerra dos Seis Dias, e Jerusalém podia lagartear à vontade sob o sol que lhe dourava as muralhas.

A leitura é indispensável para quem quer se divertir, conhecer a Terra Santa dos anos 1960 pelos olhos de um brasileiro e, acima de tudo, se deliciar com o estilo único do Verissimo: “Penso: brinco de viajar, e viajando às vezes me digo que sou dois: um que viaja e outro que se vê viajar. No meu caso, há um terceiro, o que vai escrever sobre o que viajou e o que se viu a viajar. Depois virá um quarto eu: o que ler o que o terceiro escreveu sobre o que viajava e o que se via viajar”.

Logo no início do capítulo “Tudo vale a pena”, ele relata alguns encontros na chegada a Israel “num avião da Alitalia”:

Alguém me estreita contra o peito e ficamos a nos dar reciprocamente fortes palmadas nas costas, numa espécie de dança de ursos, antes mesmo de eu saber ao certo quem me abraça. Finalmente descubro: “Nahum Sirotsky, homem de Deus, que é que você anda fazendo por aqui?” Encontrei pela última vez este simpático judeu errante gaúcho em Washington, há uns quatro anos, e depois perdi-o de vista por completo. Conta-me que é adido de imprensa junto à nossa embaixada em Tel Aviv. Apresenta-nos Beila, sua mulher, uma loura de face dramática.

Nahum, como muitos dos que me leem e acompanham sabem, é meu guru, meu avô postiço, meu mentor  e primeiro (e crítico) leitor em muitas das matérias que escrevi a partir de Israel, onde ele se instalou finalmente na década de 1990 e de onde seguiu trabalhando ao longo de muitos anos, como jornalista e correspondente. Tem hoje 87 anos. Foi um dos anfitriões do Verissimo na viagem que daria no livro. A “loura de face dramática”, Beila Genauer, mulher de Nahum, era atriz,  e formou o Teatro dos Doze, ao lado de Sérgio Cardoso, Sérgio Britto e outros.

Adamá, a terra

02/07/2006 § 3 Comentários

Teoria que acabo de ouvir de um motorista de táxi árabe muçulmano, filho de pai iemenita:

Deveríamos colocar uma mesa daqui até Eilat cheia de comida, para que árabes e judeus sentem para conversar e fazer a paz. No final das contas, brigamos pela terra. E o que é que vamos levar daqui quando morrermos? Nada. Vamos todos lá pra baixo da terra.

Eilat fica no sul do país, distante uns 250 quilômetros de Jerusalém.

Amén.

[AULA NO CARRO] Vale dizer que motoristas de táxi em Israel poderiam facilmente ser professores de política. Cada corrida é uma sessão grátis de debates sobre o que rola do lado de fora do carro. Em São Paulo, ouvi falar, tem um assim!

[NAS TELONAS] Esse papo de adamá, terra, me fez lembrar uma cena do excelente Um herói do nosso tempo, filme franco-israelense de 2005. No hebraico, adam (de ben adam, ser humano) e adamá (terra) têm a mesma raiz comum. Com base nisso, o personagem do filme dá uma explicação emocionante.Vejam o filme, vale a pena.

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