Nosso confuso português

06/03/2013 § 5 Comentários

O português usado aqui no Brasil não é para amadores, nem para turistas… Acompanhe a cena, ocorrida na recepção de uma convenção, em Fortaleza:

– Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.
– Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
– Sou de Maputo, Moçambique.
– Da África, né?
– Sim, sim, da África.
– Aqui está cheio de africanos, vindo de toda parte do mundo. O mundo está cheio de africanos.
– É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade…

– Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.
– Desculpe, qual sala?
– Meia oito.
– Podes escrever?
– Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.
– Ah, entendi, meia é seis.
– Isso mesmo, meia é seis.

– Senhor, só mais uma informação. A organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material: DVD, apostilas, etc. Gostaria de encomendar?
– Quanto tenho que pagar?
– Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.
– Hmmm! Que bom. Aí está: seis reais.
– Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
– Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?
– Isso, meia é cinco.
– Tá bom, meia é cinco.

– Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.
– Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.
– Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.
– Pensei que fosse às 9h05, meia não é cinco? Você pode escrever aqui a hora que começa?
– Nove e meia, assim, veja: 9h30.
– Ah, entendi, meia é trinta.
– Isso, mesmo, nove e trinta.

– Mais uma coisa, senhor. Tenho aqui um folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está hospedado?
– Sim, já estou na casa de um amigo.
– Em que bairro?
– No Trinta Bocas.
– Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?
– Isso mesmo, no bairro Meia Boca.
– Não é meia boca, é um bairro nobre.
– Então deve ser cinco bocas.
– Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
– E há quem possa entender?

Visto no Facebook. Mas poderia ter sido ouvido em qualquer lugar do Brasil! Recebi comentário do autor do texto, Jansen Viana. Não sabia que era dele, por isso não havia creditado. Aproveito para sugerir o bacana Recanto das letras, blog em que escreve.

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Das antigas

18/10/2010 § Deixe um comentário

Sou mesmo das antigas! Uso ainda o Dicionário de Idéias [sic passim] Semelhantes, na realidade um tesauro, em uma edição que ficou quase sem capa, de páginas completamente amareladas e mordidas pelo tempo, impressa quase duas décadas antes mesmo de eu nascer e aberto com a seguinte “nota introdutória”:

É-nos, sem dúvida, muito grato oferecer ao público brasileiro mais este dicionário,e que, particularmente, por seu cunho peculiar, vem preencher sensível lacuna no campo da lexicografia nacional. Realmente, quanta vez não se nos interrompe o fluxo dos pensamentos, à falta de expressão suficiente e adequada, de vocábulo preciso e capaz de bem traduzir a mensagem a transmitir-se? (…)

Foi presente do meu pai, que adotou o novo idioma ao deixar o Egito com os pais – meus avós – quando tinha apenas oito anos, para a nova vida na América do Sul. Embora estrangeiro, ele domina o português de forma muito mais ampla e apaixonada que muito brasileiro. E outros tantos idiomas.

Daí, talvez, tenha vindo essa minha paixão pela palavra, pelo escrever.

Você pode ter um parecido, mais novo.

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