Gmar chatimá tová a todos!

13/09/2013 § 1 comentário

Yom_Kippur_on_Highway_20_Tel-Aviv[1]

Aos amigos, a todos os amigos, “gmar chatimá tová“. Significa, em hebraico, algo como “que sejamos inscritos no livro da vida com uma boa assinatura”. Mas o desejo não é judaico – é universal: que usemos este Yom Kipur, que começa hoje, para refletir sobre os erros e os acertos não apenas para pedir desculpas pelos erros e comemorar os acertos, mas para aprender com eles e seguir adiante. Para isso, não é necessário fazer o jejum de 25 horas ou ir à sinagoga filar bolos de mel ao final do período.

O mais importante da data é a reflexão e a capacidade de olhar para si e colocar os acontecimentos dos últimos 365 dias em uma balança pessoal.

Yom Kipur, o “dia do perdão”, acontece dez dias após Rosh Hashaná, a “cabeça do ano”, o ano novo judaico. Esses dez dias, que acabam hoje, são chamados “yamim nora’im”, “dias terríveis”. A data do ano novo é também universal. Comemoramos na semana passada os 5774 anos da criação do homem, do primeiro homem, que pode ter sido um homem ou uma mulher, tanto faz (as religiões dirão que foi um homem, blá, blá, blá!) A humanidade é assim antiga – e está na hora também de aprendermos com os erros cometidos ao longo desses quase 6 milênios e parar de repeti-los!

Que sejamos todos inscritos no livro da vida!

De 2010, quando eu ainda estava em Israel: Yom Kipur, feriado das bicicletas (foto: Tel Aviv vazia no Yom Kipur; Wikipedia)

Anúncios

TV Globo, ‘Amor à vida’ e o aborto

29/05/2013 § 63 Comentários

Confesso que fiquei revoltado durante o capítulo de hoje da novela das 21h da TV Globo, Amor à vida. Diferente das duas anteriores, essa não me pegou, mas eu estava trabalhando diante da TV e acabei vendo. Para quem não sabe, na trama o Antonio Fagundes é médico, rico e dono de um hospital. Em uma cena, ele conversa com uma paciente – uma mulher grávida que quer abortar.

aborto(Foto: Bill Davenport/Stock.XCHNG)

Deveria ser muito simples: uma mulher que quer abortar deveria poder abortar. Ela é a única pessoa com qualquer direito de tomar a decisão de tirar esse feto da barriga, seja pela razão que for – nem a sociedade retrógrada, nem o Estado, muito menos a Igreja deveriam ter esse direito. E muito menos um médico, claro. Os médicos, na realidade, deveriam ser os agentes da execução desse direito – de forma segura e asséptica. Para evitar um açougueiro.

Vamos à novela, então. E à minha revolta. Em vez de ensinar anticoncepção, de falar sobre camisinha ou pílula (a escolha da palavra “precaução” me incomodou), de colocar o tema em debate, de educar a população que assiste à atração maior do horário nobre, a trama dá os seguintes recados (o diálogo está lá embaixo):

1. aborto é coisa do mal, do demônio, anti-Deus, 2. mulher não tem direito de decidir sobre o próprio corpo, 3. (o argumento religioso patético) células são “uma vida”, 4. quem quer abortar é irresponsável e inconsequente, 5. é melhor mandar uma mulher para um açougueiro a fazer o aborto e 6. um filho (indesejado) pode salvar um relacionamento!

Felizmente há médicos responsáveis que, ainda que ilegalmente, cuidam de pacientes e realizam o aborto. Esses salvam vidas. Isso é “amor à vida”…

Fiquei tão revoltado e indignado com o que via que acabei desabafando no Twitter, durante a novela. Se você concorda comigo e quer retuitar alguma das mensagens (abaixo), basta clicar sobre as imagens. (Se discorda, debata!)

aborto1

aborto2

aborto3

aborto4

Alguém me sugeriu desligar a TV, mudar de canal. Eu poderia fazer isso. Você poderia fazer isso. E aí? Milhões de pessoas continuariam vendo e continuariam a receber esses recados, essas mensagens. Milhares de mulheres que podem engravidar amanhã poderão decidir por manter um filho indesejado (um monte de células se reproduzindo, até a 12ª semana) porque ouviram um discurso retrógrado no horário nobre. É isso que me preocupa.

Converse sobre o assunto no Facebook.

Esse foi o diálogo entre o médico (e galã) vivido por Antonio Fagundes e a paciente, uma pobre coitada qualquer (assista ao vídeo no final).

(Médico com cara indignada) Como assim, você não quer ter esse filho?
– Eu já tenho dois filhos, doutor. Eu nunca casei. O meu ex-companheiro sumiu, eu nem sei onde ele anda. E o pai dessa criança aqui é um namorado, não é nada sério.
– Mas vocês dois são adultos, conscientes. Por que não tomaram precauções?
– Ah, pintou um clima e… rolou. Eu esqueci de tomar pílula, ele tava sem camisinha.
– E essa criança que você esperando é que vai pagar por isso?
– Mas eu de pouco tempo!
– Não importa, é uma vida. Eu sei, muita gente acha que interromper uma gravidez é uma coisa simples, basta não querer a criança. Mas eu… eu fiz um voto quando eu tirei o meu diploma de medicina. A minha missão é salvar vidas.
– Olha a minha situação, doutor.
– Uma situação que você mesma criou. Você arrumou um namorado, não tomou precauções e agora você quer se livrar dessa criança? É uma vida que aí dentro. Eu sei que muita gente acha que Deus não existe, duvidam da existência de Deus. Mas pra mim um bebê é a prova mais concreta de que Deus existe. Eu não sei por que você me procurou, eu não entendo, eu sou contra o que você quer fazer.
– Então, se o senhor não pode me ajudar, eu vou indo… (se levanta)
– Eu sei exatamente o que você vai fazer. Você vai procurar uma pessoa sem escrúpulos que te ajude a tirar essa criança… Você sabe que aborto mal feito é a terceira causa de morte materna no país? Você tá correndo o risco de perder a sua vida.
(Mulher senta e chora, culpada) Desculpa.
– Você contou para o seu namorado?
(Mulher faz que não com a cabeça) Não, senhor.
– Você não acha que ele tem o direito de saber que você grávida?
(Mulher com cara de desalento, em silêncio)
– Fale com ele. Quem sabe o seu relacionamento com ele possa ficar mais sólido? (Médico sorri) Você gerando uma vida. (Sorri novamente) Lute por ela.
(Mulher sorri, meio de lado, contrariada) Tá. (Cena acaba)

Converse sobre o assunto no Facebook.

O ouro e as mulheres de Jerusalém

21/02/2013 § Deixe um comentário

Achei que jamais usaria esse espaço para falar sobre a região em que vivi durante sete anos, entre 2004 e 2011, o Oriente Médio. Para isso, tinha o blog Expresso Oriente, no qual escrevia bastante sobre minha experiência em Israel, nos territórios palestinos (nos quais, a rigor, não poderia entrar) e nos países aos quais eu tinha acesso livre e legal – Egito e Jordânia.

Mas o relato de uma colega jornalista que está em Israel neste momento me fez repensar essa decisão e deixar de lado a ideia de não falar sobre o Oriente Médio aqui. É a velha história: podemos sair do Oriente Médio (ou da guerra, uns dizem), mas o Oriente Médio nunca sai de nós. Faz parte do que sou.

A Cidade Velha de Jerusalém ao entardecer (Free Israel Photos)

Eu acho que Jerusalém é de ouro. De ouro e da pedra clara que, com os raios solares, deixa a cidade lindamente dourada nos finais de tarde. E essa cor não se ofusca mesmo com os absurdos que acontecem por lá. Na realidade, uma cidade que já viu guerras, crucificações, conquistas, destruição e reconstrução, está acostumada até aos absurdos.

De pedra Jerusalém foi feita. De pedra tem sido seu destino. De pedra muitas de suas agonias, bem como suas mortes e repetidas ressurreições. De pedra também o segredo de seu mágico encanto. (Erico Verissimo, Israel em Abril)

Enfim, o relato da Gabriela Korman no blog Yalla!, feito pelos participantes do Programa de Estágios da Faculty For Israeli-Palestinian Peace-Brasil (FFIPP-Brasil) 2013, aponta para a questão de como ortodoxos judeus encaram (e tratam) as mulheres. Na verdade, o post dela me impressiona nem tanto pelo fundamentalismo, mas pela atuação vergonhosa da polícia, que confisca vestimentas religiosas como se fossem armas e prende mulheres como se fossem uma ameaça à segurança nacional. E sabemos que fazem isso para evitar a revolta dos ortodoxos, que são, eles sim, uma ameaça.

Está na hora de existir igualdade de gênero em um país que se divulga como sendo “a única democracia no Oriente Médio”, mas que separa homens e mulheres nos ônibus, nos templos religiosos e, em algumas ocasiões, até na rua – sem dúvida nas casas e na função familiar de uns e outros. Estão corretas as mulheres que se vestem de talitot e de sua própria fé e vão para o Muro das Lamentações rezar. O lugar é aberto e deve ser para todos.

Israel está se tornando cada vez mais uma teologia fundamentalista e isso definitivamente não combina com democracia. O que acontece no Muro das Lamentações, como no relato da Gabriela, se repete nos assentamentos, em que colonos queimam mesquitas, agridem palestinos (não vou entrar no mérito do equilíbrio ou da questão de defesa) e sequer podem ser punidos pelo Exército – por lei, só a polícia pode prender cidadãos israelenses.

Yesh anashim im lev shel even, yesh avanim im lev adam (Há pessoas com coração de pedra, há pedras com coração de gente; Ofra Haza, Hakotel)

Em tempo e a propósito: na próxima edição da revista Viagem&Turismo, da editora Abril, sai uma matéria minha sobre Jerusalém, cidade sagrada em igual medida (e isso se vê nas ruas, nos monumentos, nas vestes, nas tradições e nas tensões) para judeus, para muçulmanos, para cristãos.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com religião em Ato ou Efeito.

%d blogueiros gostam disto: