Todos dormem, mas a cidade pulsa

25/01/2013 § 1 comentário

São quase cinco horas de uma manhã de feriado raro do ano novo, quase final de janeiro, o mês do meu aniversário. Para os trinta e quatro anos completados há poucos dias, ganho uma dor nas costas que o Google me ensina se chamar lombalgia. Tenho um emplastro na parte inferior das costas, que promete aliviar a dor. Não funciona. Já tomei três comprimidos, e nenhum deles comprimiu a dor. Com ela, não consigo dormir. Todos dormem, mas a minha dor não permite sequer me virar na cama. Decido levantar e escrever.

Coloco a cabeça para fora da janela. Vejo minha rua vazia, silenciosa, um pouco molhada pela chuva que caiu mais cedo. Ouço um latido bem ao longe. O cachorro para. Deve também estar querendo dormir. Olho para o horizonte, que durante o dia me revela a cadeia de montanhas que cerca o norte de São Paulo. À noite, vejo apenas luzes, que parecem piscar em um ritmo ensaiado, todas juntas. Deve ser a impressão que meus olhos cansados dão. Não dou importância.

Firmo meu olhar entre as luzes e o perfil disfarçado de alguns prédios distantes. Algumas janelas têm luzes, que piscam e revelam que outras pessoas devem estar adormecidas diante de televisões ligadas. É o que eu acho. A cidade dorme. Todos dormem. Mas a cidade pulsa, como um coração. No silêncio em que me encontro, com a respiração suspensa por alguns segundos, ouço um tum-tum que não para. É o coração de São Paulo, que bate dia e noite. Suspeito ter ouvido um batuque, além do tum-tum, mas devem ser meus ouvidos cansados.

Caminho pela casa. Algumas poucas luzes estão acesas. É o bastante para eu enxergar o computador e digitar algumas palavras. Já desliguei a televisão, que não conforta minha dor – ao contrário, me força a posições desagradáveis para a lombalgia. O tum-tum continua, incessante. O asfalto das ruas de São Paulo deve estar quente, ainda. Luzes vermelhas no alto de prédios distantes formam uma linha imaginária que parece o desenho de um eletrocardiograma.

Todos dormem, mas a cidade pulsa. Quero dormir também.

O tempo em São Paulo

15/06/2012 § Deixe um comentário

Um grande amigo meu, da Bahia, me contou hoje que ele poderá vir para São Paulo passar alguns meses, a trabalho. Combinamos de tomar uma cerveja que está pendente há anos, falamos de instalações, relembramos nosso último encontro, no século passado etc. Papo vai, papo vem, ele lança a pergunta:

Como vai estar o tempo nos próximos três meses? Frio a frio pra caraca?

Bom, em se tratando de São Paulo, eu disse a ele, tudo pode acontecer. Inclusive esses tons de frio intercalados por dias de muito calor quando ele sair de casa usando um sobretudo e de tempestade e alagamentos quando ele deixar o guarda-chuva em casa.

Como ele é baiano, disse, não tem sobretudo. Eu tampouco, nunca usaria no meu dia a dia. Mas sugeri que ele arrume um. O guarda-chuva, pelo menos, ele não precisa trazer. Nos primeiros pingos aparecem vendedores em todas as esquinas da cidade. Viva São Paulo!

Reentrada leve

30/03/2011 § 1 comentário

Tenho me encontrado com muita gente e, vez ou outra, me perguntam como está sendo a volta ao Brasil. Preciso confessar que achava que a adaptação seria mais complicada, traumática até. Tinha receio de enfrentar dificuldades para me acostumar de novo com a falta de segurança, com o transporte público daqui, com questões essas e outras sobre as quais eu deixei de pensar nos meus últimos anos em Israel.

Mas a verdade é que as coisas estão sendo bem melhores do que eu planejei! Embora eu more na região que um amigo definiu outro dia como “bolsão de segurança”, os assaltos estão por aí. Na onda dos arrastões que andaram fazendo em restaurantes de São Paulo, roubaram clientes no La Buca Romana, que fica na esquina de casa. Mesmo assim, tenho andado quase despreocupado, bem menos tenso do que imaginava que ficaria.

O transporte público também melhorou muito desde que eu deixei o Brasil, em 2004. É verdade que eu pouco ou nada usava, naquela época. Tinha um carro, que vendi antes de deixar o país. Com o trânsito caótico como está eu prefiro aproveitar o tempo de viagem para mergulhar nos livros, nas minhas leituras, que ficaram tão raras em português quando eu estava em terras estrangeiras.

E, morando em uma cidade como esta, tenho vivido São Paulo intensamente. Já estou contando os dias para a Virada Cultural, que será a minha primeira. Há em Tel Aviv algo parecido – a Layla Lavan (Noite em Branco), em que há várias atrações gratuitas durante a noite. O formato brasileiro – 24 horas de atrações – vai ser minha estreia. Estou curioso.

Hoje estive no Centro da Cultura Judaica, que tem uma programação fascinante, não bastasse estar a apenas duas quadras de casa. Depois do delicioso filme Bagdad Cafe (ou Out of Roseheim), tive aula de gastronomia com Breno Lerner, que ensinou como preparar os pratos servidos no local, que fica na Route 66. E experimentei sopa de creme de milho, bolo de carne (apelidado de It’s not your mother’s meatloaf), chilli e bolo de batata doce. Agora é arriscar as receitas na Casa Laranja!

Não, minha reentrada não está sendo traumática! Minha adaptação à cidade onde nasci e cresci até os 25 anos está sendo tranquila, feliz até. Já estou até empregado – começo na segunda-feira como editor de internacional do portal Estadão.com.br. Estou também contando os dias, ansioso para começar! E, mais importante, tenho visto as pessoas, com tempo de sobra para um café ou uma cerveja, um passeio pela Paulista ou um almoço no meio do expediente. Coisas que eu não fazia quando vinha em férias ao Brasil.

Viva o retorno!

É pra lá que eu vou!

28/11/2010 § 1 comentário

Coisas do Brasil, coisas de São Paulo! E é pra lá que eu vou, dentro de algumas horas embarco para Paris, de lá para o Rio. No final da semana chego na cinzenta e sorridente São Paulo! Saudade diz pouco.

(Dica da Andrea Alevi)

‘Quantos judeus tem aqui?’

02/09/2010 § Deixe um comentário

Inacreditável. A notícia chegou pelo Facebook, mas eu precisei confirmar, e achei no Estadão e na Folha:

Uma quadrilha com pelo menos oito homens fez um arrastão na noite de ontem em prédio residencial da rua Oscar Freire, nos Jardins (zona oeste), uma das áreas mais nobres da cidade.

Os primeiros do grupo invadiram o prédio pela garagem dentro de uma BMW preta, que entrou colada ao carro de um morador.
Segundo relato de moradores, os criminosos entraram gritando: “Quantos judeus tem aqui?

Buscavam também o apartamento de um andar específico (no prédio, há um por andar), que diziam já ter assaltado há mais de um mês.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com São Paulo em Ato ou Efeito.

%d blogueiros gostam disto: